11 de abril de 2006

emprego

O emprego já era!


Por que a verdadeira natureza da questão do desemprego não é debatida de forma responsável pelas lideranças políticas? Será ignorância ou demagogia? Sejam de esquerda, direita ou centro, políticos de todas as nacionalidades continuam prometendo a criação de milhões e milhões de empregos. Mas não há sinal de uma explosão de novas vagas. Pelo contrário. Os sinais são de uma tendência devoradora de empregos, sem que por isso haja prejuízo da produção. No Brasil, o setor bancário encolheu quase pela metade em cerca de dez anos. Mais exatamente, de 817 mil empregados para 497 mil, entre 1987 e 1996, enquanto o número de clientes mais que dobrou. Novas tecnologias criaram mais e melhores conveniências para os correntistas.

Hoje, um computador ligado à internet vale por uma agência. A mesma coisa ocorreu na indústria automobilística, na qual um dia o presidente Lula trabalhou como torneiro mecânico, função tornada obsoleta pela robotização. Em 1986, ano com o maior número de contratados no setor, havia 157 mil trabalhadores, para produzir 1 milhão de veículos. Em 2004, eram 101 mil trabalhadores, que produziram 2,2 milhões de automóveis, de qualidade muito superior.

Isso se aplica a qualquer atividade produtiva, porque a humanidade vive os impactos do uso cada vez mais penetrante da tecnologia da informação, casamento entre o computador e as telecomunicações. Tudo leva a crer que entramos numa era na qual é possível que a economia cresça sem que o nível de emprego cresça como antigamente - graças à capacidade de transferir tarefas repetitivas e mecânicas para as máquinas.

As perguntas mudaram e as respostas antigas não funcionam mais. Por mais poderosos que aparentem ser, a verdade é que governos não têm como gerar empregos de forma sustentável. Podem fazê-lo temporariamente, criando bolhas. Mesmo assim, mais cedo ou mais tarde, a conta virá, e virá amarga. Quem cria verdadeiramente riqueza e postos de trabalho são indivíduos empreendedores e empresas saudáveis, capazes de combinar conhecimento, aptidões, capital e de correr riscos, buscando atingir seu objetivo de lucro.

Mas, e nós, indivíduos? Como ficamos nessa perplexidade, nessa angústia e incerteza? Na cabeça de quase todos, emprego é ainda o modelo do século XX de vínculo de trabalho entre pessoas e empresas, sinônimo de dedicação integral e exclusiva, salário fixo e garantias como estabilidade, férias e benefícios. Esse modelo está em xeque.

Xeque-mate?

Temos de encarar a necessidade de romper a cultura do emprego criada ao longo do século XX. Temos de encarar o desafio de romper o modelo educacional, igual a ensino fundamental mais superior. Esse modelo nos qualifica como meros procuradores de empregos. Devemos criar uma nova perspectiva para o indivíduo, baseada na idéia de educação continuada - aquela que, ao longo de toda a vida, ajuda a requalificar as pessoas de forma ininterrupta, tornando-as aptas a aprender e a viver como indivíduos mais empreendedores.

E se no futuro prevalecerem novas formas de vínculos, mais parecidas com projetos por tempo determinado? Então, o indivíduo procurador de emprego, que busca fundamentalmente segurança e estabilidade, será aposentado pelo indivíduo empreendedor, aquele que procura maior controle sobre o próprio destino, recompensas maiores, capaz também de assumir riscos maiores.

A natureza do vínculo de trabalho entre os indivíduos e as organizações é a questão-chave a reinventar. Não se trata apenas de rever o contrato social para promover crescimento econômico. Nos anos que virão, indivíduos e sociedades que se recusarem a mudar (como ocorre agora na França), que enxergam reformas e inovações como precarização de direitos adquiridos, vão caminhar em direção ao impasse.

Há menos de 150 anos, em 1858, a população do Rio de Janeiro era de 260 mil pessoas, das quais 110 mil escravos. Naquela época, poucos eram os indivíduos capazes de visualizar a viabilidade do progresso sem os braços escravos. Afinal, o senso comum ainda considerava a escravidão como uma das formas de resolver a necessidade de mão-de-obra. Até que aquilo se tornou, claro e cristalino, como vemos hoje: um crime contra a humanidade.

O tempo não pára. Em várias partes do mundo, pioneiros estão reinventando seu estilo de vida, experimentando, inovando. Criando alternativas de passar a viver o trabalho não como conseqüência do emprego, mas como parte do significado da própria existência. Você provavelmente conhece alguns deles. Eles já são contemporâneos da Sociedade Digital Global. O fato de serem ainda uma minoria, difícil de identificar claramente, não diminui a importância do que estão fazendo. Em toda festa, é a minoria animada que faz a maioria dançar.
(texto de Ricardo Neves, consultor de empresas ? Revista Época, 03/abril/06)

abraços



dr x

Um comentário:

m disse...

Taí, legal este seu post. Parabens!
Primeira vez aqui!!