16 de janeiro de 2007

gostar

Um jeito mais simples de gostar


O que a gente espera de um amor? Tudo. Que sejamos apoiados em todas as nossas decisões, que o sexo seja nada menos que exuberante, que jamais escutemos um não, que o humor se mantenha sempre elevado, que adivinhem nossos pensamentos (e não adivinhem quando eles puderem causar mágoa), que haja disposição para aceitar todos os convites, que nunca cansemos do rosto, da voz, do jeito do outro, que os dias passem leves e que sejam sempre como foram os primeiros, que o tédio jamais bata à porta, que não haja mal-entendidos, que não se economize nos beijos, que a vida cumpra o prometido: ser uma festa constante.

O que a gente espera de um amor soa a delírio, e por isso a frustração logo se instala. Não há como realizar nem metade do que idealizamos, e muito menos o tempo inteiro. Deveríamos esperar apenas uma coisa do amor, do nosso amor: o que ele puder nos oferecer.

Ele não vai topar ir a um concerto de música clássica, pois acha chatíssimo, e você então vai sozinha, e, sem pensar em revanche, aceitará dele um convite para assistir a um show de hip-hop numa casa noturna em que você jurou jamais colocar os pés, e de repente vai adorar o programa que terminará às 4h da manhã, horário em que você normalmente já está quase se levantando da cama para iniciar o dia.

Seu amor não vai oferecer beijos a todo instante, mas um dia acordará você com pétalas de rosa pelo chão do quarto e você não achará cafona, e sim brindará, com suco de laranja e croissants quentinhos, o fato de ainda ser surpreendida na idade em que está.

Ele não vai curtir a vida ao ar livre como você queria, se negará a montar num cavalo ou caminhar por uma trilha, lhe parecerá urbano demais, mas em contrapartida oferecerá um copo de vinho, um cafuné prolongado, um silêncio apaziguador que até parecerá coisa do campo, mesmo vocês estando no sofá da sala num prédio de 15 andares em meio a uma capital caótica.

Ele não vai conseguir realizar seu sonho de cruzar os Estados Unidos de carro, mas vai oferecer a você um passeio de barco por aqui perto, você que odeia barcos ? ou melhor, odiava. Ele não vai se vestir dentro dos padrões que você considera de bom gosto, mas vai impactá-la com uma originalidade à qual você não estava acostumada. Ele não vai dizer a frase certa na hora certa, e vai fazer você descobrir que não há frases erradas quando se fala com o coração. Ele não vai gostar do que você gosta, e você não vai gostar do que ele gosta, e a criatividade para descobrir prazeres em comum dará à relação um caráter insuspeitado.

De um jeito mais simples, é possível amar aceitando o que é possível receber, sem sofrer pelo que foi sonhado em vão. ?O que a gente espera de um amor soa a delírio, e por isso a frustração logo se instala. Não há como realizar nem metade do que idealizamos, e muito menos o tempo inteiro.?

(texto de Martha Medeiros ? publicado no jornal O Globo, 26 nov 2006)


abraços

dr x

Um comentário:

Angélica disse...

Ahum..é isso ai mesmo.!!rssss.
uma gracinha de post.dorei ..bjus e uma otima e feliz semana.!!!